As tendências da moda mais recentes, como os dad shoes e ugly sneakers, estão seguindo a linha de lançar cada vez mais roupas, tênis e acessórios que dão prioridade ao conforto, muitas vezes gerando até mesmo um debate sobre gosto e estilo.
Esse movimento tem raízes nos “comfort shoes”; sapatos que surgiram na década de 1960, prometendo livrar os pés da ditadura dos sapatos estreitos e solas de couro, valorizando a saúde ortopédica acima da elegância. O Wallabee é um desse patinhos feios originais que, como os feiosos ugly sneakers, acabou ficando cool!
Popularizado pela marca Clarks na década de 1960, o Wallabees até mesmo reconhecia sua estranheza em seus anúncios ao dizer, “To some people, looks are everything. But…” e “You can’t stand on good looks alone”. O consumidor, tinha coisas mais importantes para se preocupar do que a aparência, como o conforto!
O design dessa bota casual é um controverso crossover de bota com mocassim. O cabedal, tem detalhes das bordas inchadas costuradas à mão, e o sapato possui uma forma anatômica com bastante espaço para os dedos e sola de crepe para amortecer cada passo. Diferente da desert boot, a sola não tem salto, o que dá ao sapato uma aparência mais pesada.
A história do Wallabee mais famoso: Clarks

A Clarks havia praticamente criado o mercado de calçados casuais na década de 1950 quando lançou sua desert boot.
Aproveitando o sucesso da desert boot na década de 1950, a Clarks adaptou um modelo feito na Alemanha pela Sioux, chamado Grasshopper. Parece que o acordo original era pagar uma comissão e produzir o modelo em uma fábrica na Irlanda, chamada Padmore & Barns que eles haviam comprado há pouco tempo (lembre-se desse nome).
Os Wallabees foram originalmente desenvolvidos para ser o primeiro “comfort shoe” do mundo. As campanhas originais, como a foto acima, destacam profissões como fotógrafos de moda, arquitetos e diretores de cinema. Como as regras de vestuário ainda eram mais rígidas na época, é bem provável que a intenção original da Clarks tenha sido associar seu produto a profissionais mais liberais, com maior controle sobre o que vestiam.

Tem um texto muito bom, Tipping Point, por Malcom Gladwell que fala sobre o retorno do sapato Hush Puppies na década de 90, um estilo semelhante ao Wallabee. Como isso aconteceu? Os primeiros jovens a calçar o sapato na década, quem quer que fossem, não estavam tentando promover os Hush Puppies. Eles estavam calçando-os precisamente porque ninguém mais calçava.
Em seguida, a moda se espalhou para dois estilistas, que usaram os sapatos para vender outra coisa – alta moda. Os sapatos foram um toque incidental. Ninguém estava tentando fazer dos Hush Puppies uma tendência. No entanto, de alguma forma, isso é exatamente o que aconteceu. Ele explica o fenômeno como uma epidemia cultural, que pode ser espalhada simplesmente encontrando e alcançando as poucas pessoas especiais que possuem poder social. É mais ou menos o que eu imagino ter acontecido com o Wallabee.
Os anúncios originais vinculam o calçado a algumas profissões criativas na década de 60. Fotos na década de 70 mostram jovens em NY calçando o estilo, lembrando que esta foi uma década que marcou a “casualização” da moda masculina e que os conflitos sociais da época criaram uma clara divisão entre gerações. O aspecto feio e desleixado poderia ser exatamente o que a juventude procurava.

Algumas fotos antigas me fazem acreditar que talvez fossem até parte do uniforme preppy dos anos 70. É possível que até os jovens das universidades de elite tenham escolhido calçar o sapato como uma maneira de dividir gerações, na eterna busca de quebrar o paradigma dos pais.
Fato é, eu consigo imaginar os professores, normalmente de inclinações liberais, trocando seus sapatos com sola de couro por essas opções de camurça, sempre acompanhadas pelos cássicos paletós de tweed com cotoveleira.

De lá para cá, os vários modelos da Clarks foram aproveitados por diversos grupos e subculturas, como jovens na Jamaica, cujas fotos hoje dominam o moodboards dos designers de moda masculina.
Nos anos 90, os músicos das cenas Baggy e Britpop na inglaterra buscaram influências no estilo dos casuals e mods, revivendo o Wallabee.
Ao mesmo tempo, nos Estados Unidos, Ghostface Killah e Wu Tang Clan adotaram o wallabees como uniforme – o início de Glaciers of Ice de Raekwon é sobre como customizar um par.

Aqui no Brasil, foi um dos sapatos mais estilosos dos anos 80, e conhecido como London Fog. O virou referência por ter sido lançado pela London Fog por aqui, e como no caso do BomBril, a marca virou sinônimo do nome do produto. O sucesso foi tanto que outras marcas aderiram a fabricá-lo. Foi muito aceito pelo público surfwear e também pelo não surfista. Não houve um garoto que tivesse entre 12 e 18 anos na época, que não usasse o sapato mais estiloso dos 80.
Então, não é nenhuma surpresa que volta e meia a internet tenha algum texto dizendo que algum modelo da Clarks está de volta. Como muitos sapatos que se tornaram arquétipos, eles nunca realmente saem de cena. Ano a ano, a preferência por um determinado modelo aumenta e diminui. Não tem muito o que dizer sobre eles, exceto talvez às vezes seja bom usar algo tão básico e confortável.
Sobre a produção e qualidade dos Wallabees Clarks

Durante vinte anos, a Clarks produziu as Wallabees exclusivamente na Padmore & Barns, até a decisão de mover a produção para a China. A fábrica na Irlanda não aguentaria o volume de produção necessário, e os custos eram mais altos.
Em 1987, a Padmore & Barnes negociou um acordo para comprar a fábrica de volta mas continuar produzindo o Wallabees. A Clarks fazia seus calçados para a América do Norte na China e Vietnã, mas continuou atendendo a Europa e o Japão com calçados feitos pela fábrica Irlandesa, até o acordo expirar em 1997 e a P&B ganhar sua completa independência e a Clarks mover toda sua produção para centros de baixo custo na Ásia.
Em 1997, quando o acordo terminou, a P&B lançou o próprio modelo chamado P204. Havia uma clara diferença na qualidade e até mesmo no da bota, e por isso a nova marca foi procurada por várias referências ao redor do mundo. Para os puristas, os irlandeses faziam wallabees muito superiores aos chineses. A China, na época, simplesmente não tinha a mão de obra necessária e a Clarks tinha muita dificuldade em controlar a qualidade da produção. O gerente geral da P & B, Frank Bryan, disse em uma entrevista que “[…] a produção chinesa do Wallabee era realmente uma cópia e muito pouco esforço foi feito para recriar o produto original”.

No Japão, colaboraram com a United Arows, Watanabe & Co, Highbridge e outras marcas pioneiras do lifestyle japonês. Nos Estados Unidos e Europa, marcas como Paul Smith e Supreme entraram em contato para produzir suas versões. A colaboração com a Supreme foi lançada em 2000, utilizando a forma e os componentes originais, e apesar de finalmente pisar nos Estados Unidos e começar a construir sua base de clientes, a fábrica acabou fechando por motivos financeiros. A Padmore encerrou suas atividades em 2003.
Em 2012, a P & B relançou sua produção do icônico sapato sob o nome P204 usando os materiais originais e supostamente melhores do que Clarks. No entanto, apesar de aparentemente serem superiores, eu tenho quase certeza que são feitos em Portugal.
Como usar Wallabee

Os Wallabees são feitos em estilos de cano baixo ou cano médio, com diferentes opções de cabedais em couro ou camurça.
- Wallabee Low – também conhecido como “Wallabee Oxford”
- Wallabee Boot – também conhecido como “Wallabee Chukka”
Sapato ou bota, são muito simples em seu design, que é inegavelmente versátil e bastante confortável. Quando vistos sozinhos, fora dos pés, acho extremamente feio (por incrível que pareça). São planos até que derrepente fazem uma curva perto dos cadarços, algo muito incomum em calçados. No entanto, quando combinados com certas roupas, essa aparência desengonçada ganha um certo charme.
Um detalhe: Eu acho que o Wallabee veste melhor com calças mais justas, se possível, terminando bem em cima do sapato sem sobrar nenhum tecido. Elas também funcionam com calças mais largas, nesse caso com a barra ainda mais curta (e por isso, um estilo é mais avançado e distinto).
Foto Borasification Foto @matwoodruff



Como você viu pelas fotos, eles vestem particularmente bem com o tipo de estilo “rugged ivy” – um pouco mais hippie do que a preppy, não tão rústico ou colarinho azul quanto o workwear. Mais “estudante universitário de filme americano antigo” no campo do que “lenhador no exército”. Ficam muito bons com tecidos aconchegantes como veludo cotelê e tweed, também aconchegantes. Casam muito bem com roupas derivados do esporte, como parkas, camisa polo, suéteres, camisas oxford, esse tipo de coisa.
Wallabees são realmente fáceis de usar e, embora sejam bastante comuns, são um pouco mais exóticos do que a desert boot básica e isso os torna mais divertido.
Onde Comprar
Você pode comprar um produto da Clarks Originals, importando do site americano ou inglês. Se estiver com viagem marcada, consulte a página de lojas para encontrar uma na cidade que você vai visitar. Outra opção, se você procura um produto premium, é visitar o site da Padmore & Barnes. Eu acho eles mais bonitos e não sei bem esplicar porque. Há uma certa diferença no design, alguns milímetros aqui e ali, pelo menos pelas fotos. Infelizmente, o preço é muito superior.

Para finalizar, existe uma marca London Style na ativa. Não sei o que ela tem em comum com os originais dos anos 80, mas a linha de produtos segue os clássicos em solado de crepe. São bem semelhantes, porém com o padrão de camurça e crepe nacional, e infelizmente forma não é a mesma que se vê em fotos antigas (como o anúncio dos anos 80 acima). Essa marca London Style tem Wallabees em camurça marrom, camurça bege e uma meio rosa/alaranjada,
Assim termina esse texto sobre o Wallabee, um sapato que de tão feio, ficou bonito! Sério, se você não curte, começa a olhar com carinho e verá que é uma excelente opção “anti-tênis”, “anti-bota” e “anti-sapato” para deixar o seu visual mais à vontade.
Cara, quando ví a foto, acheiq ue estivesse falando do mesmo sapato que usei praticamente a minha adolescência toda. Depois de abrir o link e ler é que ví que na real era sobre outra marca.
Não sei se você conhece, mas eu uso esse modelo desde os meus 14 ou 15 anos só que da marca 775, aqui do Brasil mesmo.
O último que comprei foi em 2014.
Não conhecia, mas fica mais uma dica de opção nacional. Obrigado!
Esse calçado chegou aqui na década de 80 e ficou conhecido pelo nome da marca que trouxe o produto; “London Fog”, provavelmente em homenagem ao produto da marca inglesa Clarks, que foi a maior responsável por popularizar o estilo. Deve ser por isso que todas as variáveis nacionais hoje fazem essa referência à Londres (London Style, London 775). Todas essas variantes nacionais devem ser feitas no mesmo fornecedor, em Franca, pois são idênticas!
muito legal a matéria… poderia citar a marca kildare (calçados jacob) que nos anos 80 também fabricou, e com ótima qualidade, posteriormente aparece um bem “cascudo” fazendo uma copia muito distorcida da london fog… a freedon fog, fabricada em Piracaia sp , pela fabrica lopo, também acho legal citar a “cannon” esta ficava em sampa, e fabricava com uma modelagem bem próxima da da hush puppies, outros que fabricaram este modelo, foram a gorllero do sul do pais e crunch do uruguai, e para finalizar lembrando que os francanos foram grandes fabricantes de wallabee, mais batizado por eles por “cacaréco”
Valeu pela dica, Marcos. Você tem contato com esse pessoal (tirando a Kildare)?
Caso queira uma sugestão sobre botas fica aqui a ideia da marca francesa Paladium, que se não me engano são as originais ou vieram a partir do modelo usado pelas tropas francesas na Guerra da Indochina. Aqui no Brasil deram origem para as botas Commander da Vulcabrás. Will Smith usou uma dessas no filme ”Eu sou a Lenda”.
Que legal, então esse sapato de camurça areia que usei na adolescência era um wallabee? Só descobri pelo site, aliás, parabéns pela ótima matéria, dá para ver um grande trabalho de pesquisa que o embasou. Eu particularmente achava lindo e estiloso usar aquele sapato de camurça, mas confesso que a base plana, que não sei se era de crepe, me parecia, por outro lado, pesada e um pouco grosseira. Não me lembro de outras pessoas o usarem, mas confesso que recebi algumas consultas sobre onde comprar calçados e roupas. Creio que o achavam com um estilo que se destacava, sei lá. No mais, gosto muito das desert boots de camurça, o único porém em relação às botas, mesmo baixas, é quanto ao conforto, pois às vezes acho que tiram um pouco da liberdade na região do tornozelo.
Oi, Marcelo! Obrigado por acompanhar. As coisas saem de um lugar, chegam no outro, ganham seus nomes, e por aí vai. Vida que segue =)
Sapatos da Clarks foram vendidos por um curto período de tempo na rede de lojas gaúcha Paquetá (entre 2016/2018). Eram bem caros. Tive dois pares que usei até literalmente se desmancharem. Quando tentei comprar novamente em 2019 me informaram que a empresa não estava mais importando nada da marca, por causa dos custos e pelo valor final ao consumidor, o que fez com que tivessem baixa procura. Com a crise que vivemos hj é que realmente não vamos mais ver nada em lojas físicas por aqui. Mas estou sempre procurando em sites brasileiros, vai que…
Todo jovem adolescente queria um London Fog na primeira metade dos 80″ . Os surfistas da epoca tornaram cool e quem já usava Linghtning Bolt , Company , Hang Ten , tinha que complementar com o “iconico” sapato . Depois popularizou e outras marcas começaram a produzir . Mas não eram a mesma coisa. Eu tive o meu London Fog e sei que o formato , costura , sola eram diferentes de 775 e cia.